
Em 15 de abril estreiou na HBO a segunda temporada de Roma. Devo dizer que sou completamente apaixonada por esta série. Os cenários são ricos e o guarda roupa maravilhoso. As perucas, os móveis, as jóias! Tudo lindo. A reconstrução da época trás o selo da qualidade da BBC que co-produz a série. HBO providenciou a pimenta na dramatização e os atores renomados, uma parceria que já tinha dado certo anteriormente em “Band of Brothers”.
Mas não é só a cenografia que seduz. A história é contada de uma forma envolvente e intrigante. Como toda série histórica que se preza apimenta a realidade com uma boa dose de ficção. A proposta é apresentar esse período conturbado da história de Roma, o colapso da República e a instalação do Império, sob o ponto de vista de dois soldados romanos (núcleo pobre/fictício), mas sem deixar de lado os grandes discursos de Júlio César, Cícero e Otávio (núcleo rico/real). Então, como transformar acontecimentos conhecidos e algo tão instigante que as pessoas quisessem assistir? James Cameron deve ter se perguntado a mesma coisa quando se decidiu por filmar Titanic. Simples, esqueça a surpresa do final, (porque, sim,meus amigos, César foi assassinado no final da primeira temporada) e preocupe-se em apresentar o desenrolar dos acontecimentos de forma surpreendente. Ah, e crie um subenredo em que é possível mostrar toda a espécie de bizarrice romana: prostituição, altares, sacrifícios, legiões, etc. Se os grandes vultos não fizeram isso, vamos criar alguns personagens fictícios que o façam.
Alguns críticos têm comparado a rivalidade entre Átia (sobrinha de César) e Servília (antiga amante de César e mãe de Brutus) a uma versão de Desparate Housewives na Antigüidade. Bem, todos sabemos que não há fúria no Universo que se possa comparar a de uma mulher rejeitada, e nenhum golpe é baixo demais se aniquilar uma rival. O poder das mulheres na Antiga Roma é conhecido, bem como em todo o mundo ocidental contemporâneo também. Ouse não comparecer ao almoço de Natal na casa da mãe e sentirás os portões do Inferno se abrindo a seus pés! Átia é o protótipo da mulherzinha sem escrúpulos capaz de qualquer coisa para manter a sua posição social e Servília, o reduto de todas as virtudes tradicionais ultrajadas. Tanto assim que é mostrada como a maior conspiradora contra César. Quem ganhará essa disputa na segunda temporada?
Os personagens que mais seduzem, no entanto, são Titus Pullo e Lucius Vorenus. Os tais soldados, pessoas comuns, que testemunham a marcha dos fatos. Testemunham? Não só testemunham como têm parte ativa na evolução dos acontecimentos. A única coisa real sobre eles são os seus nomes, retirados da obra escrita pelo próprio Júlio César De Bello Gallico, de uma passagem no Livro V em que ele elogia dois centuriões veteranos por sua coragem em batalha. Pullo é representado como uma espécie de bom malandro, um legítimo seguidor da Lei do Gerson, afinal, é preciso levar vantagem, certo? Já Vorenus é um sujeito rígido, leal e um tanto ingênuo que segue fielmente as regras mesmo quando elas representam desvantagem para si mesmo. Foi de cortar o coração a cena de seu regresso ao lar depois de anos na Gália: “Amor, cheguei da guerra!… Quem é essa criança que você ta segurando?” (Shame on you, Niobe!) A trajetória desses dois tem mais altos e baixos que uma montanha russa. Os papéis se invertem e desinvertem novamente, quem poderá dizer onde isso vai parar? O que falta acontecer a esse dois intrépidos?
Aliás, devo dizer que quando Voreno se torna inescrupuloso fica bem mais cativante. Há um certo fascínio nos crápulas maior do que nos mocinhos. Por exemplo, Timon, o judeu contrito, era muito mais interessante quando não tinha escrúpulos. (E não é que acharam um jeito de dar destaque a um grupo de judeus! Será que estão preparando o caminho para a aparição de Jesus? Afinal, ela se deu no reinado de Otávio, embora, na época não tenha tido praticamente relevância alguma. Medo, muito medo.)
A segunda temporada é toda sobre a ascensão de Otávio. O menino tímido e reflexivo cresceu disposto a vingar a morte do pai adotivo com juros e correção monetária. Não poupará nada, nem ninguém nessa sua busca, mas tudo feito com muita elegância e discrição. Nem a mãe, Átia, nem a irmã, Otávia, como sabemos. Mas de que jeito isso vai acontecer? Como ele se tornou tão poderoso?
As cenas de batalha são muito realistas. Era uma época simples: ou você matava ou você morria. As cenas de nudez e sexo abundantes. Nunca vi tantos glúteos masculinos desnudos em todos esses anos de seriados! Cá entre nós, aquele Marco Antônio, heim, é um espetáculo de homem!
Por tudo isso, meus caros, vale a pena assistir a segunda temporada, mas não se esqueçam: o seriado não se propõe a ser um documentário exato, é uma obra de ficção e como tal deve ser julgado. Sejam compassivos. Ele apresenta anacronismos, sim, e muitos, principalmente com relação às bizarrices religiosas e culturais. Mas nada que comprometa o resultado final. Meus senhores, Roma não era um lugar bom para sedentários e pensadores, mas de astúcia e ação. Não duraríamos uma semana lá.
Roma é exibido na HBO de quinta-feira às 21:00h.
Site oficial: Rome - Behind the Scenes
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