A carreira de Schliemann começou antes que métodos científicos ligados a arqueologia tivessem se desenvolvido, e, dessa forma, as técnicas de campo por ele utilizadas deixavam muito a desejar. Mesmo arqueólogos de sua própria época condenaram as suas práticas destrutivas e falta de registro. Alguns até desconfiam que ele teria fabricado o Tesouro de Priamo, ou ao menos rearranjado os achados de modo que formasse um verdadeiro tesouro. Um de seus empregados, Yannakis testemunhou que ele havia encomendado a um ourives em estilo micênico e os plantou em uma tumba para chamar atenção para as suas escavações, mas estas especulações são rejeitadas pela maioria dos arqueólogos.

Nascido em 6 de janeiro de 1822, na pequena cidade alemã Neu-Bukow, Johann Ludwig Heinrich Julius Schliemann era filho de um pastor, Ernest Schlieman, e sua esposa, Luise Therese Sophie. Aos 9 anos sua mãe faleceu, o que foi um evento traumático. Então ele foi mandado para viver com seu tio. Embora mais tarde tenha dito que não recebeu nenhuma educação quando criança, aos 11 anos ele foi capaz de escrever um ensaio sobre Ulisses e Agamenão em Latim. Com essa idade ele entrou para o ginásio na cidade de Neustreliz, onde permaneceu por aproximadamente.
Seu pai encorajou o seu interesse em história e lhe deu um exemplar de Illustrated History of the World de Ludwig Jerrer no natal de 1829. Além do mais, durante o ginásio entrou em contato com as obras de Homero. Mais tarde foi estudar numa escola vocacional, mas teve de abandoná-la quando seu pai não pode mais pagá-la ao ser acusado de se apropriar do dinheiro da igreja em que trabalhava. De acordo com o seu diário, se encantou com a beleza do grego clássico quando ouviu um estudante bêbado recitar passagens da Odisséia de cor. Mas a veracidade destas informações pode ser questionada, já que em muitas outras ocasiões ele nem sempre tenha dito a verdade, como quando mentiu para a emigração nos EUA.
Schliemann não pode terminar os seus estudos, mas era uma coisa que ele queria muito. Mais tarde em sua carreia de arqueólogo, foi mantido a parte dos profissionais formados. Ele sempre teve a tendência de posar uma coisa que nunca foi. Algo que deve ter aprendido com o seu pai.
Aos 14 anos tornou-se ajudante em um armazém, onde trabalhou por 5 anos, lendo vorazmente o que pudesse durante o seu tempo livre. Depois disso, em 1841, aos 19 anos foi para Hamburgo onde conseguiu emprego como camareiro no navio Dorothea que ia para a Venezuela, mas o navio afundou ao largo da Holanda. Trabalhou, então, um tempo em Amsterdam e, em 1844, em São Petersburgo, como agente de uma firma de importação/exportação, representando uma série de companhias, parece ter se saído bem, sem no entanto se tornar rico. Foi então que finalmente aprendeu grego, bem como russo.
Ele tinha com certeza um dom para as línguas e ao final de sua vida conseguia conversar em inglês, francês, holandês, espanhol, português, sueco, italiano, grego, latim, russo, árabe e turco, tão bem como em alemão, sua língua nativa. Sua habilidade o ajudou muito nos negócios de importação.
Seu irmão Ludwig morreu em 1850 depois de fazer fortuna especulando com as minas de ouro da Califórnia. Schliemann muda-se então para Sacramento onde abre um banco e em apenas seis meses já há mais de um milhão em ouro em pó em seus cofres. Os mineradores precisavam de atravessador que negociasse o ouro e ele faz fortuna rapidamente. Mas embora tenha conseguido a cidadania americana, logo vende o seu prospero negócio e retorna a Rússia em 1852. Onde se casa com Ekaterina Lyschin, sobrinha de amigos ricos, numa tentativa de ser visto como um cavalheiro de classe. Foi um casamento atribulado desde o começo, pois Ekaterina negou-se a se entregar a ele enquanto ele não se tornasse mais rico. Ele apostou tudo o que tinha em anil e conseguiu bons lucros. Só então pode compartilhar da intimidade com sua esposa e eles tiveram um filho, Sergey. E em seguida mais dois. Durante a Guerra da Criméia (1854 -1856) lucrou negociando com salitre, enxofre e chumbo, matérias-primas para munição, tornando-se ainda mais rico.
Então ele decidiu retirar-se do mundo dos negócios em 1858, com apenas 36 anos. Outros afirmam que isso só aconteceu em 1863, aos 41 anos. De qualquer forma, muito antes do que a maioria das pessoas poderia sequer pensar nisso. Em suas memória ele afirma que havia decidido se dedicar à busca de Tróia, mas como outras afirmações suas, talvez isso não seja totalmente verdadeiro. O certo é que viaja muito, tentando de todas as formas ver o seu nome ligado a famosos ícones culturais e históricos.
Tróia parece ter sido o primeiro foco de sua atenção em termos de arqueologia clássica, em 1862. Naquela época, como até recentemente, a própria existência da cidade era questionada. Talvez sua atenção tenha sido chamada ao visitar as escavações do arqueólogo britânico Frank Calvert, a quem encontrou em 1868 em sua primeira viagem ao sítio de Hissarlik, Turquia. Ele acaba se tornando seu sócio e colaborador. Logo ele publica um artigo sobre afirmando que o sítio realmente era a Tróia de Homero e submete uma dissertação em grego antigo a Universidade de Rostock, obtendo assim a sua graduação, finalmente. Mas acaba por se divorciar de Ekaterina, que não estava interessada em tais aventuras e permanece na Rússia.
Ele se dedica ao trabalho com grande entusiasmo, sem falar em uma pequena fortuna que gasta prodigamente. Ele consegue não só levantar mais fundos para dar prosseguimento às escavações, como também publicar os registros dos achados, obtendo a lealdade dos arqueólogos que trabalhavam com ele. Tão logo seu divorcio é regulamentado ele procura uma nova esposa, de preferência com sólidos conhecimentos em cultura grega. Até coloca um anuncio em um jornal de Atenas, mas acaba se casando com a sobrinha de 17 anos do arcebispo de Atenas, Sophia Engastromenos, com a qual logo tem dois filhos.

Em 1871, ele está pronto para escavar a Tróia homérica, que acredita estar no estrato mais profundo do sítio de Hissarlik. Ele cava sem descanso até atingir fortificações que acredita ser o que procura. Calvert entra em conflito com ele por causa do método destrutivo de escavação que ele utiliza, deixando-o furioso com um artigo que publica, no qual afirma que o estrato referente a Guerra de Tróia foi destruído, inferindo que Schliemann o destruiu com seu método intempestivo. Talvez para confirmar o seu método, em 1873, subitamente, foi encontrado o assim chamado Tesouro de Priamo nas escavações. De acordo com o seu relato, ele viu o brilho do ouro na terra e dispensou os trabalhadores de tal forma que ele e Sophia o pudessem escavar pessoalmente e o esconder no xale dela. Mais tarde ela foi fotografada usando algumas das peças encontradas.
Toda a publicidade que se seguiu atraiu a atenção das autoridades turcas, que acabaram por revogar a sua licença para escavar e passaram a exigir parte dos achados. Schliemann com o auxílio de Calvert contrabandeou grande parte das peças para fora da Turquia, maculando a sua imagem internacionalmente e se tornando proscrito no país. Essas peças estão em litígio até hoje.

Em 1875, escava o Tesouro de Minyas em Orchomenos. No ano seguinte, descobre um grupo de tumbas em Micenas, cujos esqueletos eram adornados com muitas peças de ouro, como a famosa Máscara de Agamenão, que o eloqüente Schliemann atribui a ninguém menos que um dos mais importantes reis gregos de todos os tempos. Neste mesmo ano recebe permissão de retornar a escavação de tróia mas está ocupado procurando os locais descritos na Odisséia em Ítaca. Só retorna lá em 1878/9 e depois para uma terceira temporada em 1882/3. Em 1884 escava Tiryns. E, finalmente uma quarta temporada de escavações em Tróia em 1888/90, quando Wilhelm Dörpfeld lhe ensina os princípios da estatigrafia, mas agora praticamente todas as informações que a técnica poderia proporcionar sobre o sítio tinham sido destruídas.
Em 1 de agosto de 1890, Schliemann retornou a Atenas, relutantemente e em novembro viajou para Halle para operar seus ouvidos que permaneciam cronicamente infeccionados. Ele não quis permanecer muito tempo no hospital e viajou para Leipzig, Berlim e Paris. Ele teria retornado a Atenas se seus ouvidos não tivessem inflamado tanto, forçando-o a permanecer em Nápoles. Mesmo com as terríveis dores ainda conseguiu visitar Pompéia. No dia de natal de 1890 entrou em colapso, vindo a falecer no dia seguinte, em seu quarto de hotel em Nápoles. Seu corpo foi transladado para Atenas por amigos onde permanece enterrado em um mausoléu cercado de baixos relevos que o representam em suas escavações.
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